Tuesday, May 2, 2017

Vidro Com Teia


Untitled, Diggie Vitt, 2014

Passam as estações, o coração muda. Sem nada guardar, como uma metafísica do vidro, a absoluta transparência, nada aqui, uma ausência de tudo na forma de um corpo, com os olhos colados à janela e o filme do suicídio das folhas, entre o vulto escuro das árvores. Ampulheta de pó de unhas, cabelos, lábios, lamentos. Se recuarmos, o fim passa a ser o início. Uma múmia entrapada de rosas. A cerveja que já ninguém bebeu. Não suporto esta corrupção dos corpos, a doença, a velhice, e vou ser uma estátua coberta de musgo, esquecida dentro da floresta. A morte que ama a morte, com alguma coerência lógica, lírios e couves, vermes e pássaros, e uma coroa última de apocalíptica beleza.

Jesus Carlos

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