Saturday, April 29, 2017

O Cavaleiro Sem Coração


(Da série Rockabillies) Sem título, Erik Refner, Hemsby, UK, 2002

O cavaleiro vestido de noite e prata,
Entre valas negras, enterrou fundo
O seu pobre coração de chumbo e
Vai, para onde vai o vento. Os lábios,
Secos, a pedir a paga mais simples,
A sombra, a água, o pão e o caminho.

Ah, devolvam ao cavaleiro perdido
A sua rosa de sangue, a que é pura,
Que murmura mais alto na noite e,
Quando mãos a tocam, se desfaz
Em pássaros roxos. Escuras, tristes,
As águas choram, choram, choram
Porque ele passa, passa e não fica.

Cavaleiro sem coração, «Adeus!»,
«Voltas quando voltar o vento?»,
O vulto que passa, passa e não fica,
Os pássaros roxos por companhia.

Ó devolvam-lhe, águas chorem, ó
Devolvam-lhe a sua rosa de sangue.

Jesus Carlos

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Tuesday, April 25, 2017

Deadly Pistachios, 321


Fly Away, Birgitte Niedermair, 2012

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Thursday, April 20, 2017

Arcóbriga


She Rises, Courtney Brooke, 2015

As ancestrais pedras lembram falos erectos,
Bois erectos, espadas e lanças. De entre a bruma
As imagens. Assim evocadas, hieráticas,
Sobreviveram à morte? Pó que ao pó regressa
Levanta uma cerrada névoa mas
Todo cujo coração lê no espelho da pedra
Pode ainda vê-las. Quem as viu ficou
Com a alma mais funda. Assim gloriosas,
Roxas ao poente, altas, hipnóticas.
Aqui morreram reis, é uma presença
Como a de árvores mortas. Aqui quero eu morrer,
Como a carcaça de um burro ou de um boi.

Jesus Carlos

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Monday, April 17, 2017

Deadly Pistachios, 320


The Disasters of War 10, Gottfried Helnwein, 2007

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Friday, April 14, 2017

Deadly Pistachios, 319


Lines, Diggie Vitt, 2014

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Tuesday, April 11, 2017

Deadly Pistachios, 318


'The Man Who Wasn't There', Joel Coen & Ethan Coen, UK/US, 2001

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Thursday, April 6, 2017

Os Que Não Descansam


Everytime You Go, Martin Stranka, 2015

De noite pode ser dia, nasce a lua a ser sol para tantos, vagueamos, por vezes em busca, por vezes porque não conseguimos parar nas casas dos homens, ficar sentados, amar, beber uma paz de aquários e balões e sentir que entre paredes é um lugar. Nas noites nem frias nem quentes, sopradas por um vento leve, é pior. Eu também vos vejo, agitados por entre as ruas escurecidas, eu também sou visto, a mudar de passeios, a ser gato, não paramos, nada dizemos. Talvez um dia achemos, porque toda a criatura pertence a uma mãe qualquer. Eu imagino uma árvore ao fim de todas as ruas e de todas as noites, agita os braços de ramos, com frutos vermelhos e folhas de prata, agita a copa de treva como cabelos que destapam um rosto, e sei que cheguei a casa.

Jesus Carlos

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