Monday, February 27, 2017

Deadly Pistachios, 312


Hollow (Self Portrait), Lucy Jane Purrington, 2014

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Sunday, February 26, 2017

O Homem Sem Olhos


Self-portrait, Brion Gysin, 1935

Bela, e nada para lhe dizer. Sacos de plástico, caixotes. O vento que agitava o sinal de trânsito. O que está morto deixou de estar presente nas horas mas não se cala. A sombra que uiva dentro de mim. O rato morto na sarjeta, o súbito redemoinho de folhas ao fim do aguaceiro, a noite, silente, vazia e fria. As árvores, quietas na escuridão. Eu, quieto na escuridão. Não é verdade que a luz tudo ilumine.

Jesus Carlos

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Thursday, February 23, 2017

Do Magistério Da Filosofia Portuguesa


Looking Back, Lesley Oldaker, 2013

Uma cadeira pode ser vista como mera coisa para se sentar, traves de madeira feita utilidade, e uma mesa, como coisa para descansar os cotovelos, pousar copos e chávenas, e do mesmo modo se pode entender paredes, portas e tectos – quem não é do café, mais não compreenderá, porque para pertencer ao café é preciso beber primeiro um anjo antes de entrar; sim, um anjo inteiro. É preciso degluti-lo, sem hesitação e temor, aceitar o fogo, a brasa viva a descer da garganta até ao âmago da alma.

Depois poder-se-á falar do que não é público, dos nexos ocultos, do que os mestres transmitem, de como o café, as mesas, as cadeiras se transformam num magistério eterno que guarda a pátria; poder-se-á, porém com parcimónia, porque os testemunhos e os legados são tesouros e os cofres não se podem abrir a qualquer, porque em todas as épocas medram os ladrões, os loquazes, os labrostas e os poltrões. Desta ética secreta cuidam os discípulos, fidelidade absoluta, honra. Não é discípulo quem quer, é discípulo todo aquele que dá provas, pela obra e pelos actos – mas acima de tudo é discípulo o que mantém vivo, imorredouro, o crepitar do fogo ancestral dentro de si.

Jesus Carlos
Publicado no Nº10 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 2º Semestre de 2012, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2012

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Saturday, February 18, 2017

Al-Gharb


Frigate Dom Fernando II e Glória, Olaf Rahardt, 2010

Al-Gharb

Desde o século XV, pelo menos, que a Europa caminha para Sul – em tempos idos caminhou para Oeste, em busca do Mar Oceano e das Ilhas Afortunadas, apenas com um fluxo e refluxo a Oriente, em tudo parecido com o vómito dos bebés. Do Oriente vinha tudo, a origem, o sonho do leite e do mel, e exércitos de lanças afiadas, que aos olhos dos Europeus morriam por nada, e sem nome. O Mediterrâneo ligava duas margens, com somente uma saída, mitológica e épica.
É geograficamente simples que o Oriente rumasse a Norte, ao Mediterrâneo, às terras férteis e ao saque de uma civilização rival. Quando os Islâmicos chegaram ao extremo Sudoeste peninsular, chamaram-lhe O Ocidente, e aí ergueram parte do seu paraíso terreno, num sonho de tâmaras e amendoeiras em flor, que contentariam de branco níveo não sei que concubinas de fulvos cabelos, quando os infindáveis campos de neve não seriam mais que pura fábula entre os Godos, pela névoa de uma memória já ibérica. O Al-Gharb era uma terra outra no Al-Andalus, na Vandalusia do imaginário arábico, o porto mítico de onde os Vândalos teriam partido da Ibéria para conquistarem o Norte de África. Ficava depois da Terra dos Vândalos, um pedaço de chão ignoto, quase por cartografar, mas que os Romanos bem tinham conhecido, quando estabeleceram tratados com as cidades do Cineticum.
Depois terra de Mouros, mas de há muito terra semita, em que a memória das margens de leite e mel e uma nova pátria paradisíaca se fundiam – o fulgor de ter havido jardins e varandas, casas caiadas e navios de vela triangular, que estabeleciam rotas comerciais do Mediterrâneo ao Guadalquivir e ao Guadiana e, para além do Promontório Sacro, aos estuários do Sado, do Tejo e do Douro e, longe, às míticas Ilhas Britânicas, mantendo a rota antiga que os périplos ainda contam nos pergaminhos e nos rolos –, muito antes do Crescente ter adornado os minaretes do Al-Gharb.
Povos nobres, que as marés guardam no canto. O tesouro de uma Civilização Mediterrânica preservada numa memória colectiva do paraíso, que somente o silêncio mágico da palavra impronunciada conserva, como num mapa, na delícia dos seus terraços de prazer e paz e nos seus celeiros de abundância, juventude e eternidade.

Atlântico

Para onde se adivinha o final de um curso de água, a humanidade, imemorialmente, tem concebido a esperançosa narrativa de chegar a um lugar paradisíaco. Para além das Colunas de Hércules, o imaginário da civilização helénica mapeou o Mar Oceano de ilhas edénicas, rios que ligavam o mundo dos vivos ao dos mortos, terras repletas de monstros, deuses e reinos de imortais, riquezas mil, nem todas do ouro e da prata, e com o sonho de uma civilização perdida, modelar, originária, a que a sabedoria e civilidade humanas jamais retornariam: a Atlântida e a Finisterra foram parte desta utopia, fabulosa e temível.
Roma alimentou-se de muito desse imaginário, que continuou a assombrar poetas, viajantes, historiadores e até o pânico das Legiões perante o desconhecido e o bárbaro, mas para o homem político a Hispânia foi apenas mais um lugar a pacificar, na prevenção estratégica de que um novo Aníbal Barca recrutasse as aguerridas tribos ibéricas para ameaçar a capital do império do mundo. Conseguida essa pacificação, a Península funcionou como um lugar de degredo para onde se afastavam de Roma as tribos germânicas impossíveis de romanizar, ou melhor, de galicizar, tendo sido, em boa parte, deixado o chão seco da Hispânia entregue às brumas do mito e da lenda.
Esta colonização incompleta, que haveria de ser repetida frustremente por Godos e Islamitas, permitiu que os diversos estratos culturais deixados por todos os invasores da Península Ibérica fossem, desde o diluviano Tartessos, sobrevivendo e constituindo a tapeçaria civilizacional complexa que é a herança dos Ibéricos. Este fluxo e refluxo de povos, sempre impermanente, ou não durável o suficiente para criar uma hegemonia, porém uma tapeçaria de mil luas, ainda mais se acentuava com a lonjura da Terra das Serpentes em relação ao centro do Mediterrâneo.
Sopro da Terra do Fim, fronteira última entre o mar conhecido e o mar ignoto, a Lusitânia haveria de erguer-se como a última coroa da Civilização Mediterrânica, quando na aurora do Renascimento os Portugueses, dos escombros da inigualável Civilização Ibérica Islâmica, haveriam de lançar-se à conquista do Atlântico.
Mar Mediterrâneo, o braço de luz forte e branda que aflora a cabeleira de tenebrosos sargaços do mar revolto, sem fundo nem términus. Povoar o Atlântico, foi dar acabamento ao último grande templo por erguer na utopia universalista que acendeu o Farol de Alexandria.

Finisterra

A Finisterra não é somente um lugar, é um extremo, uma fronteira, e é mais, é uma terra prometida, um mito terreno da geografia, em que os homens sonharam imemorialmente que o fim do mundo seria a estrada para outro mundo, um Novo Mundo. A Finisterra é um longo cais, depois, o Mar Oceano, depois, as Ilhas Afortunadas, um falanstério de ouro e algas erguido para uma Humanidade Nova. Portugal e a Galiza são esse cais atlântico, pátria de refúgio de perseguidos, visionários e aventureiros. Fernando Pessoa, um atlantista, chamou a Portugal uma América antes de haver a América; uma pátria de pátrias, ainda antes de haver navegadores e a utopia do Império.
Há um porto em cada cidade à beira fúria, um pontão desconjuntado de sangue rompendo as vagas de perigo em cada pequena aldeia litoral dos Portugueses e dos Galegos: raças gémeas de pescadores, descendentes de guerreiros itinerantes que se renderam à dança da espuma e da luz, ao chamamento cavo do mar profundo, ao sentimento metafisicamente avassalador de lhe responder, prosseguir, não voltar ao areal, o destemor religioso de não recear deuses, nem demónios, nem monstros marinhos, a mensurabilidade de um paganismo ancestral que tudo reduz à coragem humana, à obra, à profanação, trágica e hercúlea, do que os deuses guardam, a conquista dos seus territórios interditos, o saque aos abismos marítimos de todos os divinos tesouros ocultos.
Homens, não santos. Vigor, não brandura. Violência, orgulho e não quietude e falsa humildade de monástico escriba. A Finisterra não é nenhuma das profecias inscritas na palavra, invislumbrada por filósofos e profetas, é osso e carne que se fez vento, a tormenta que relampeja estrondosa para além do crepúsculo solar que se estende em negras águas, as mãos do lavrador no terrunho árido, as mãos do guerreiro no punho da afiada lâmina, as mãos do arrais no leme de bom pinho ibérico para nunca mais.

Jesus Carlos
Publicado no Nº16 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 2º Semestre de 2015, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2015

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Monday, February 13, 2017

Deadly Pistachios, 311


Preste João, Lima de Freitas, 1987

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Tuesday, February 7, 2017

Da Filosofia Portuguesa Como Via Para O Reino do Espírito


Até ao Fim do Mundo, Lima de Freitas, 1986

Há um duplo paradoxo que assiste a todo o ideário de uma filosofia nacional, seja qual for a pátria de que se fale: a universalidade como meta/física de todo o saber filosófico e o saber filosófico como um ir fazendo-se em imanência.

Paradoxo, este, que não releva de um erro do pensamento, mas da própria essência de todo o pensar, dimensão humana em que o homem, no uso da sua razão natural, almeja superar os limites temporais e circunstanciais da sua própria racionalidade e inscrever no texto da história do mundo uma transcendência: enquanto duração para além deste espaço e deste tempo – aquela em que a razão, pensando, é legislada pela ontologia do mundo, acima de parcelares sistemas e pequenas ideologias, em que a humanidade se digladia e perde.

Na aporia de questões complexas progride-se assentando acordo em chão simples. Há uma Filosofia Portuguesa porque há uma Língua Portuguesa e, no paradoxo que referimos, é a língua que nos permite esclarecer de que chão partimos. Nenhum linguista ou teórico da literatura colocaria em causa a existência de literaturas nacionais, ou seja, de uma visão do mundo circunstancial, inscrita nas possibilidades semânticas e sintácticas de uma língua.

Na língua, em qualquer, se encontra o mesmo paradoxo do pensar. Por um lado, a língua é um modo do tempo histórico, perecível e parcial, matéria que serve o pensamento, na sua existente expressão acidental. Por outro lado, a língua é fala do ser, que abre a razão individual à ontologia do mundo que a faz ser pensamento e espírito: o Verbo, a língua como sopro vivo, o perturbador Ruach criador.

Ao tomarmos a língua como matéria activa – que, ao servir o pensamento, não pode senão fazer-se ser, e esse fazer-se ser tornar-se a forma do pensamento –, só poderemos esclarecer o aparente paradoxo metafísico colocando-o na diferença concreta entre âmbito nacional e âmbito civilizacional de uma língua. É esse âmbito civilizacional que acontece como universalidade mensurável. A Língua Portuguesa é um modo nacional da Civilização Mediterrânica, nas suas componentes helénica, latina, judia e islâmica. A etimologia o demonstra, muito para além do campo estritamente semântico e até onde cada sema é uma coluna modelar de uma civilização específica: ideias, sentimentos, ciências, política, moral, estética… ou um epocal pendor para o espanto, o temor, ou a confiança.

As filosofias nacionais existem porque as línguas nacionais existem, condicionando visões do mundo, históricas, efémeras, e intrinsecamente tão perecíveis quanto as culturas. Atenas não é mais e, em rigor, o que os Gregos antigos pensaram só é compreensível para nós a partir do que reconhecemos na sua sabedoria como ainda actual, na medida em que continua a ofertar respostas e questionamentos ao nosso tempo histórico. Ou seja, a Filosofia Grega, nacional e sua, conserva-se enquanto pensar, para o homem contemporâneo, por tudo o que, na sua substância própria, alcançou a universalidade. Contudo, esta universalidade não é o território metafísico de uma verdade absoluta, mas uma extensão maior, sígnica, simbólica e ideal, a que hoje chamamos Civilização Ocidental – como contributo de diversas sabedorias nacionais que se fundiram numa sabedoria civilizacional.

A realidade de uma Língua Portuguesa (se outras provas não houvessem) é o garante da existência de uma Filosofia Portuguesa, enquanto pensar específico, que compete com outras filosofias nacionais, no afã humano de determinar o que será a civilização do futuro. Porém, no que concerne à Filosofia Portuguesa, podemos estar já certos do seu lugar na universalidade: porque há uma Civilização Portuguesa, enquanto etapa da transformação da Civilização Mediterrânica na vindoura Civilização do Mundo – que não aceitamos que seja a hegemonia da Civilização Ocidental, mas o Reino do Espírito.
 
Jesus Carlos
Publicado no Nº10 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 2º Semestre de 2012, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2012

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Thursday, February 2, 2017

Ariano Suassuna


Faceless, Ben Goossens, 2008

Escreve com pena de pato, mestre,
Toma o teu tempo, à luz da vela,
Solitário para deus, besta e fêmea,
Porque o que é sagrado demanda
A sombra e pequena é a luz
Que lhe basta. Rasguem-se as paredes
Caiadas, sudário de pedra de um dia
Ter estado em alma lusitana, lânguida
E muda, no teu Nordeste de fome e lume –
Rasguem-se e afundemo-nos na planície
Árida, no espelho do longe contínuo.

Toda a minha juventude, mestre,
Ao teu serviço darei, sangue e carne,
Alma e olhos – porque eu também demando
A sombra, a luz exígua, última, única
E nem deus, nem besta, nem fêmea
Matam a minha fome – porque faminto
Eu sou também, da Pedra do Reino
E do rubro puro e alto do Sangral.

Jesus Carlos
Publicado no Nº18 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 2º Semestre de 2016, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2016

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Moleskine de Scardanelli © 2012 (3rd edition) | Panel