Friday, December 30, 2016

Deadly Pistachios, 307


Susan From Behind, Eric Kroll, 1991

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Saturday, December 24, 2016

Deadly Pistachios, 306


Modern Love 25, Brian Rea, 2013

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Sunday, December 18, 2016

Deadly Pistachios, 305


'Martin', George A. Romero, US, 1977

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Wednesday, December 14, 2016

Anjo Morto


Dellamorte Dellamore, Michele Soavi, Germany/France/Italy, 1994

Ela sentou-se em frente à chávena de café com leite, na esplanada com cadeiras brancas e mesas azuis, estava muito frio, o céu estendia cortinas de neve, mas precisava de ar. Por vezes precisava de ar. Fosse porque vivia longe da sua pequena vila e dos pais, ou porque quando ficava ansiosa lhe voltava uma réstia da asma de infância. Ar não é o ar, essa atmosfera de vento e horas, ar é uma utopia das mulheres. Não era a única, a meio da manhã, quando os relógios ficam mais lentos, outras como ela se sentavam por ali ao ar, folheavam revistas, escreviam postais ou escreviam nos telemóveis. As mãos inquietas, os fálicos batons coloridos, submissos, os olhos fechados no sonho por trás de óculos escuros, num pedaço de vida das grandes cidades, com homens que caminhavam no ar, de casacos longos como túmulos, sempre com frases preparadas acerca da solidão feminina. As mulheres sentadas interrompiam o teatro de fazer alguma coisa, davam uma última golfada pura e aceitavam a sua companhia. A rapariga magra de compridos cabelos castanhos não era diferente, enervava-se, então sorria, por vezes os olhos agitados pareciam de pássaro, não sabia olhar de frente, nem no sexo, gritava, e estaria na próxima manhã ali de novo com fome de jardins sem fim, de coroas de rosas, igual à montra iluminada, de luzes verdes e anjos de papel. Tudo lhe doía, parecia um anjo.

Jesus Carlos

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Saturday, December 10, 2016

A Serpente No Espelho


Bad Times, Good Times, Ben Goossens, 2007

Quem és tu? Que vives dentro dos espelhos. Sombra. Vestes-te de prata infernal, arrastas os crepúsculos roxos no reflexo cintilante, o sangue dos dias. Quem és tu? Sombra viva, feita da prata do fundo dos espelhos, que vagueias pelos cemitérios da memória, pelos baús roxos da morte, com luas vampiras sobre os ombros. Quem sou eu? Que verto o meu sangue pelas palavras, as luas roxas nos olhos, os cemitérios no rosto oculto, guardião de um reino de sombras, sombra também, morte também, ícone cego, que canto no negrume, como o vento solitário nos bosques e ergo-me ruína antiga, coração pisado, cova em que os mortos trocam carícias, porque a luz negra os traz até aqui, os guia e protege. Quem sou eu? Que escolhi não existir, enrolado na noite, cão com sede, de costas para a praia, morcego com sede, em queda sobre a arriba, serpente com sede, quieta na pedra alta, branca ao luar, tenebrosa e, depois, escura. Quem és tu? Que me olhas. Quem sou eu? Que te olho. Eu, tu. Onde quer que te percas, onde quer que eu esteja, encontrarás as minhas mãos debaixo do mar.

Jesus Carlos

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Tuesday, December 6, 2016

A Noite No Espelho


Magic in the Air 2, Ben Goossens, 2004

Não temas, quando o mestre é oculto, não há rosto, não pode o negrume ganhar uma forma, nem o uivo das trevas apoiar-se numa vara, porque só o que existe pode ser maculado, não o que está morto para o mundo. Não temas, porque amar o que está morto nada pede, os mortos estão acima da fome, da sede, da sofreguidão da luz e do sorvedouro do escuro. Quando o mestre é oculto não quer a tua carne, a tua alma, não quer do que julgas ter pertença, porque o que está morto não deseja nem guarda nem sonha e nada és e nada tens que lhe possa desviar os olhos. O mestre não é, e esta é a primeira pele de que te deves descarnar, se procuras a sabedoria do anjo, porque o que está morto transforma-se no papel de espelho, no archote do coração da serpente.

Jesus Carlos

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Saturday, December 3, 2016

Deadly Pistachios, 304


Rush Hour, Caras Ionut, 2012

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