Friday, October 28, 2016

Depois Do Sexto Círculo, Os Matricidas


Caïn Fuyant avec sa Famille, Fernand Cormon, 1880

Aos meninos que transportam a árvore no vale gélido, não deve quem os consegue ver perturbá-los na sua ronda, caminham há muito e os selos abertos obrigam a que tenhamos por eles piedade. Carregam a árvore morta como se fosse um lar, em cima dos ombros feridos, e tudo em redor é negrume, deserto e frio. São duas trémulas sombras em farrapos e levam a árvore, levam-na por companhia e esperança, com as faces lívidas junto ao verde exangue; aparentam ter dez e seis anos, com mãos frágeis, demasiado esguias e ossudas. O mais velho segue à frente, a segurar o tronco, e o mais novo, tão pequeno de corpo, mas forte e feroz como um corvo, que incita o outro a continuar, segura a copa bicuda, com o cadáver vegetal sujo de neve numa coroa em volta do rosto esfolado, os olhos fixos, acesos.
Não é possível dizer-lhes a raça e pertencem à espécie dos homens, a algum povo antediluviano de que não há mais memória. Tudo é deserto e treva, tudo é gelo e neve e solidão, transportam a árvore, transportam-na e vê-los é uma provação do horror, um mistério de que não se pode falar. Tremem, tremem mais quando sentem que não estão sós, e o mais velho olha então sempre para o irmão, vira a cabeça para trás por entre os ramos num movimento estranho e fica-se com a certeza de que chamar-lhes crianças é uma ilusão do afecto humano: a boca abre-se-lhe num ululo arrepiante, um aviso, e o mais pequeno agita a carne ferida e secunda-o num grito onde se sente uma fúria superior à soma última dos males e dos ódios.
Possam chegar, possam chegar, neste vale tremendo proibido aos vivos possam chegar, por tudo o que é piedade nos anjos e nos homens possam chegar, com a sua árvore e a memória sangrante de terem sido meninos com dedos e lábios possam chegar, com carne de prata e um coração pulsante e alegre possam chegar, que haja um lugar, um destino, um fim na sua errância, que possam chegar e todas as estrelas se iluminem no céu desse dia, de novo vejam pássaros, rios, flores e todo o sofrimento e toda a solidão e toda a morte cessem.

Jesus Carlos

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Sunday, October 23, 2016

Deadly Pistachios, 298


NEKRomantik, Jörg Buttgereit, Germany, 1987

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Wednesday, October 19, 2016

Deadly Pistachios, 297


Untitled, Alison Scarpulla, 2011

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Saturday, October 15, 2016

Prece A Rowan


Rowan Tree, Eeno Z., County Wicklow, Ireland, 2008

Sagrada, sagrada, ó sussurrante,
Bebedora de sangue e seio de sangue,
Mãe de tudo o que é verde, que do trovão
E do teu ventre nasceu, guardiã
Das terras dos homens, protege-me.
Com o teu sangue o druida vê, o bardo
Canta, o coração do guerreiro inflama-se.
Que o meu sangue se possa erguer, vívido,
Assim na morte, e a minha alma
Possa repousar, Mãe, possa repousar,
Como uma sombra quieta, no fresco
Segredo dos teus braços.

Jesus Carlos

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Tuesday, October 11, 2016

Deadly Pistachios, 296


Aus Statische Vibration 1, Dieter Appelt, 1979

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Friday, October 7, 2016

Deadly Pistachios, 295


Alongside Us, Maria Friberg, 2007

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Tuesday, October 4, 2016

O Fósforo


Nocturnal Birds, Rodolfo Tucci, 2011

O menino louco não fala, vestiu-se de silêncio com os punhos cerrados, e não fecha os olhos nunca. O que vê, não conta. Ora assobia como um pássaro estranho, ora grita sem parar como um moribundo, encosta a cabeça ao vidro da janela e chora com a chuva que bate, depois dança com a fúria de um mar revolto e, de noite, espectros levantam-no, para que não durma no chão. Os olhos abertos no meio do quarto, dentro da treva, fora do prédio. Sabe que vai morrer, que nunca crescerá, e é por isso que lhe é permitido brilhar no escuro, até que os cabelos se lhe ergam fogos estáticos, porque é uma estrela que não aceitou o mundo, e que em breve regressará para junto dos seus.

Jesus Carlos

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