Tuesday, September 29, 2015

Cripta IV


Tree at a Graveyard, Emil Schildt, 2002

Papel limpo, entre um cálice ao fogo e a água
A correr a página num ocaso de lacre, a noite
Na ponta do lápis, que veste o vulto sentado.
A mão depois. Funéreo, quando vier o dia, com
Ciprestes pálidos a uivar numa pantalha muda.
As mãos depois, a que vê e a que escreve, tão
Quietas e eternas na tela desse dia, ao verso.

Jesus Carlos

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Wednesday, September 23, 2015

Deadly Pistachios, 233


Sphinx, Emil Schildt, 2002

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Friday, September 18, 2015

Deadly Pistachios, 232


Bridge and Boat, Ferdinando Scianna, Lisbon, Portugal, 1990

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Sunday, September 13, 2015

Deadly Pistachios, 231


'Non, ou a Vã Glória de Mandar', Manoel de Oliveira, Portugal, 1990

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Tuesday, September 8, 2015

Deadly Pistachios, 230


Bairro Alto, typical streets, Peter Marlow, Lisbon, Portugal, 2008

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Thursday, September 3, 2015

Fernando Pessoa, O Africano


O Quarto de Bernardo Soares, Mário Botas, 1982

Estranho só o raro, e raros são os mortos, que um morto fale, aos medíocres soará impossível, mas eu caminhei sobre as águas do Império, vi Portugal de longe, primeiro num sonho, uma memória de criança magoada, uma saudade que revelava o meu nome. Eu caminhei sobre as águas e voltei, a uma Lisboa na barriga da névoa, cada vez mais próxima, em declínio, inerme no tempo, em nada assemelhada à talha onírica, esquecida de si, cheia de sonâmbulos, de fala-sós, de intelectuais de pacotilha e poetas preocupados com sentimentos. As ruas, um lixo, a universidade, um tédio, as mulheres, uma anedota, os amigos, inconsequentes.
Vivo na fronteira dos dias sem Portugueses, seremos um féretro, os homens do Império, sem o «fardo do homem branco» que tanto abate os Ingleses, o nosso fardo é o fantasma de tudo incendiado na alma, o fardo do que poderia ter sido e não pôde ser.
Na minha vida agiganta-se o último lamento do que o Império foi, e o pórtico do que o Império será, não este, podre já nos livros de História, mas aquele que alucina a alma no dentro tormentoso do Oceano, com as vagas altas em redor, num país de pinhais sem chão na palavra. É das águas, foi das águas, é das águas e será, porque este Leviatã informe que me assombra é o porvir, para onde a ruína do que pôde ser, o que ergueu do pó o negro e o índio, o mouro e o godo, mudará a uma pele de prata além da alquimia, azul que não há no céu, uma vasta terra indescoberta.
Não terá um sinal nos mapas, uma rota, da luneta no convés não se verá, e é, é como o que agita a espuma nas praias com um gemido cavo do abismo do mar, debaixo de todos os luares, as serras invencidas e as minhas mãos trémulas que sabem já o que nem sonho e serei, fundamente serei, porque eu vim sobre as águas e vi o continente último, feito da carne do vento e do espírito, com um coração de escravo aberto em poços inesgotáveis de esperança.
Portugal não é o país que sou, é o Império que fui. O que serei não mancha ainda as páginas dos atlas, sei que terá palmas e dança, a mirra e o vinho, a cânfora e o vinagre, a Índia, a África, o Brasil, o norte, o sul, o leste e o oeste onde a minha alma de africano encontrará descanso um dia.

Jesus Carlos
Publicado no Nº15 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 1º Semestre de 2015, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2015

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Tuesday, September 1, 2015

Deadly Pistachios, 229


Sem título, Bruno Barbey, Portugal, 1993

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