Sunday, August 30, 2015

António Quadros


(Da série Lisbonne) Sem título 5, Claire Xavier, Portugal, 2010

O homem inteiro, rijo, de gestos elegantes,
Impecavelmente vestido, de voz franca,
Com uma presença de sabedoria e educação
Supremas, veio cumprimentar-nos, a nós,
Os petizes sem nome. A mão era forte,
Segura, fraterna. Um mestre, um sábio?
Mais que mestre e sábio: um cavaleiro
De Portugal, porque só os que demandam,
Os que conhecem o valor do sacrifício e
O caminho na noite, trazem para os outros
Um coração fundo e palpitante nas mãos.
Depois cerraram-se cortinas, lajes, portas.
Não a memória, não o exemplo e o Graal.

Jesus Carlos
Publicado no Nº5 dos Cadernos de Filosofia Extravagante – Confluências, Ed. Serra d'Ossa, Vila Viçosa, Fevereiro de 2015

Labels: ,

Saturday, August 29, 2015

Deadly Pistachios, 228


Café A Brasileira, Ferdinando Scianna, Chiado, Lisboa, Portugal, 2008

Labels:

Thursday, August 27, 2015

Castelos


Lisbon, the city seen from the Castle of São Jorge, Josef Koudelka, Portugal, 2005

Anfractuosidades, castelos, o olvido e o sono dos povos
Fazem-lhes cerco. A desolação tem um nome
A perder de vista, um cardo,
Uma coisa nenhuma. A história segura as pedras,
De escura corrupção cobertas. O castelo e as fragas,
Negros na altura, o que foram dói,
São como sombras de um país perdido.

Panóplias trespassadas, espadas só ferrugem
Que estas vidraças não defenderam
Do tempo mas da glória
Que fora sua, qualquer tenha sido.

Aqui jaz Portugal.

Jesus Carlos
Publicado no Nº4 dos Cadernos de Filosofia Extravagante – Interiores, Ed. Zéfiro, Sintra, Dezembro de 2012

Labels: ,

Wednesday, August 26, 2015

Deadly Pistachios, 227


Lisbon, Fronteira Palace, Bruno Barbey, Portugal, 1985

Labels:

Monday, August 24, 2015

Deadly Pistachios, 226


Fate Descends Towards the River Leading Two Innocent Children, Jan Saudek, 1970

Labels:

Sunday, August 23, 2015

Dólmen


(Da série The Skull) Sem título, Alison Scarpulla, 2009

Aqui, a pedra canta. A morte transforma-se num hino, as ossadas vencem o pó, são uma arqueologia das profundezas que se veste da carne da noite e se narra em sangue efémero, dentro do brilho irreal do luar, com um sudário branco ao fundo, entre as oliveiras no escuro, como se os mortos cavalgassem a brisa. É quase uma imagem de horror, mas confio mais nos mortos do que nos vivos, os mortos respeitam o ventre de uma mãe de pedra, a luz impossível, os errantes que pernoitam em cemitérios.

Jesus Carlos

Labels:

Friday, August 21, 2015

Nigredo VII


(Da série Cloister the Mew) Phantom Limb, Natalie Obermaier, 2008

O círculo de fogo ilumina a noite. O dólmen
Cego das palavras. Os apóstolos combatem
Com uma lança que é o coração. A mestria.
A clarividência. São o aço que passa
A lagoa de sangue onde as pedras ardem.
O fogo na pedra é o fogo na alma. O vento
Nos montes. A glória de uma chama ardente.
O amor estala as pedras. Porque há um eixo,
Uma dor central. A nossa casa é onde
Deus acaricia o trigo. O fogo queima a boca.

Jesus Carlos
Publicado no Nº15 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 1º Semestre de 2015, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2015

Labels: ,

Wednesday, August 19, 2015

Caleidoscópio


Lecciones de Botanica, Flor Garduño, Suiza, 2007

Ela comia os próprios cabelos, e sem ketchup ou maionese, bastavam-lhe os dias cinzentos e um pouco de chuva. Um homem parou no meio do jardim e começou repetidamente a gritar, eu devoro flores. O zangão que veio esperar a morte no candeeiro do meu quarto estava hoje morto sobre a cama. Não consigo fundir tudo isto, há uma desolação mineral no meu desejo.

Jesus Carlos

Labels:

Monday, August 17, 2015

Deadly Pistachios, 225


The New Nude, Nobuyoshi Araki, 2000

Labels:

Sunday, August 16, 2015

Envoi


(Da série Revenge) Chapter 2: The Garden, Ellen von Unwerth, 2003

A passadeira de seixos que sobe, por baixo da tapeçaria de areia em que os cristais do luar levam as águas. Para esclarecimento de pessoas que se esquecem de dormir e misturam vodka e algodão doce: um lugar onde se chega a pé nunca pode ser uma ilha, mesmo que o mar a cubra. Dito de outro modo isto não quer dizer nada, mas prefiro torrão de Alicante e mamas sem tatuagens.

Jesus Carlos

Labels:

Friday, August 14, 2015

Deadly Pistachios, 224


Anémone, Flor Garduño, Suiza, 2007

Labels:

Wednesday, August 12, 2015

O Inconsciente É Uma Linguagem


Open to Love, Guido Argentini, 2009

Há no fundo do dentro do dentro
Um virado para fora, como um corpo
Desnudado ao sol. A alma que sorri
No tão alto esplendor de partilhar,
Gomos de laranja, cigarros a meio
Da noite. Não teriam rumo os lábios
Se só falassem para dentro, não
Brilhariam aquáticos, sanguíneos.

Jesus Carlos

Labels:

Sunday, August 9, 2015

Deadly Pistachios, 223


Nude-Dune, Edward Weston, 1936

Labels:

Thursday, August 6, 2015

Nigredo XI


Beach-roamer, Herbert List, Germany, at the Baltic Sea, 1933

O coração rebenta as pedras. És ainda um peixe,
Um braço negro de vento que rasga as águas e
Se atira contra as rochas, e sobes, os cabelos
De água e dor agitas por cima do abismo como
O olhar humano entre os cavalos que regressam
Ao roxo e os corvos que se espalham pelo ocre
Das telhas. És a morte nas rochas, com as vagas,
O uivo demente da fúria do ar que as apanha,
A ode dos elementos que canta a viuvez do mundo,
O regresso impossível dos que voltam, o martelo
Do coração que esculpe as arribas do tempo.

Jesus Carlos
Publicado no Nº15 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 1º Semestre de 2015, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2015

Labels: ,

Wednesday, August 5, 2015

Deadly Pistachios, 222


Le Couple, Herbert List, Lake Lucerne, Switzerland, 1936

Labels:

Monday, August 3, 2015

This Must Be the Place


'This Must Be the Place', Paolo Sorrentino, France/Ireland/Italy, 2011

A adolescente gótica de skate é uma espécie de medalhão, um ícone solar alcandorado por entre uma cenografia crepuscular, assombro da memória que recusa morrer. O criminoso de Auschwitz é o seu anti-duplo, aquele astro negro que paira sobre os nossos abismos do esquecimento. O teatro do mundo, o sussurro das águas a querer ser um peixe, a torrente de sangue por debaixo do vermelho floral, por vezes o amor, a justiça.

Jesus Carlos

Labels:

Moleskine de Scardanelli © 2012 (3rd edition) | Panel