Saturday, December 29, 2012

Deadly Pistachios, 25


Clones, Janieta Eyre, 2000

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Thursday, December 27, 2012

A Oferenda Ao Fogo


Firestarter, Victor Eredel, 2011

Para a Sandra Costa.

As sombras uivantes das árvores um dia contarão uma história, as pedras são páginas, os abismos são búzios gigantes que repetem a palavra, as estrelas puras no céu plúmbeo recordarão. As bestas que se afastam e miram de longe, de olhos faiscantes na treva, sabem tudo, dentro da sua alma feroz e muda, sabem e guardam. O sangue derramado na ara sagrada, o frio na carne, os pés descalços nos caminhos cortantes, a solidão absoluta, a dor absoluta, este inferno voluntário para um homem e um destino, um dia serão uma canção vinda do fundo da noite. Acordará as crianças, entusiasmará os amantes, guiará os que procuram, descerá sobre a boca dos moribundos como água e agitará os corações dos morcegos adormecidos, o vigor dos cavalos indomáveis e o verde vivo das ervas selvagens pelos prados.
O que caminha descalço e nu, sombra lívida por dentro da escuridão, não pertence mais à cidade dos homens, porque agora arde, arde, archote de fogo branco, acima do negrume iníquo do mundo, do esterco dos dias e da vaidade das horas. A cinza abre-lhe a porta. A alma e o coração fundem-se e ardem, ardem sem saudade de nada, sem memória de nada, sem fome de nada, ardem e cantam com um júbilo sem fim para fora do céu escuro e das cortinas pútridas do chão.

Jesus Carlos

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Tuesday, December 25, 2012

Deadly Pistachios, 24



The Rites of Dionysus, Tim Shaw, 2000-2004 (statues in Eden Project gardens, photos by Mike Perry, Cornwall, 2011)

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Monday, December 24, 2012

Compostela I, II, III


Finisterra, Ralph Dinkel, 2006

Compostela I

Pelos vales as pedras, as aldeias de pedra
Rude, o garbo calaico das escarpas cantam
Que a coragem é uma herança antiga.
O peregrino coloca-se no lugar da morte,
No fogo da pedra. Gafanhotos, bagas.
A morte repousa em urnas de trigo
E em trilhos de cabras e em estrelados
Cumes. O céu. A luz de ser sem abrigo.
O verbo da estrela crava o coração no nome
E no número incontável dos passos.
Como um prego na carne. O que arde vive.

Compostela II

A fé tem de ser forte, a veste pobre,
A existência rica. Deves despir a carne,
Rasgar o corpo de estrelas,
Descarnar o coração ao sangue mais puro,
Ao lume rubro da pedra,
Como o escultor apura a obra.
Tocar corações iguais. Tocar:
O verbo é maior que o acto.
A imensidão é maior que a casa.
(Assim a planície toca o céu.)

Caldeia-nos o interminável longe:
Um pacto secreto à raíz do sangue.

Compostela III

Tudo retorna aqui, tudo retorna a tudo,
Tudo se fecha sobre si e se centra:

O canto fecha a noite em círculo,
O texto da carne é rasgado pela luz:
Todo o ser quer ser eterno: o mocho,
A rosa, a pedra, a cor dos lagos. O canto
Levanta os mortos, liga morte e vida,
Toca uma estrela pura.

Morre, tarde de um Dezembro sem estrelas,
Sê agora o mais precioso de ti,
Sê e torna-te eterna.

Jesus Carlos
Publicado no Nº5 da Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, 1º Semestre de 2010, Ed. Zéfiro, Lisboa, 2010

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Saturday, December 22, 2012

Albedo


Chessmen XVII, Erwin Olaf, 1987

O homem está sentado. Olha os campos que a estação esmagou de branco, a brisa fria sopra palhetas de prata na noite, como um bebé de anjo, invisível.
No lugar do chão onde o seu coração bate está um copo de metal, fino e alto.
O musgo estende-se para longe, verde-gelo como num sonho. Ao fundo as estrelas movem raios de cristal na noite clara. Tão puras, piscam no infinito.
Estende a mão e agarra uma. A estrela brilha um instante de instante e entra-lhe pelo braço, irrompe-lhe no corpo todo, é uma ferida tão profunda como o amor, queima-o.

Jesus Carlos

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Tuesday, December 18, 2012

Solidão


Toilet, Katherine Copenhaver, 2002

Foi-se embora, talvez para sempre, ninguém sabe para onde. Deixou um bilhete na porta: «Eva, já não mora aqui, não vale a pena virem contar a luz, a água, o gás, nem deixar cartas ou publicidade na caixa de correio. Já mandei desligar tudo, e a tv por cabo, o telefone e a internet.»

Jesus Carlos

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Sunday, December 16, 2012

Nenhum Lugar É Sem Sombra


António Telmo (Almeida, 2/5/1927 – Évora, 21/8/2010), Jesus Carlos, Vale do Infante, Estremoz, 8 de Agosto de 2010; provavelmente os 6 últimos fotogramas que registam o trânsito de António Telmo neste mundo

O Mestre sentou-se à beira do caminho, e disse:
– Cheguei ao final da minha jornada. Adeus. – Os discípulos, que o seguiam, olharam incrédulos e perdidos.
– Mestre, mas este lugar parece igual a qualquer outro! – Era quase um coro de desânimo.
– E é.
– Não compreendemos.
– Não há nada para compreender. Estou velho, tenho as pernas cansadas, e vou ficar debaixo desta sombra até que a morte me leve. – O Mestre cerrou os olhos, e encostou as costas ao tronco rugoso da árvore.
– E nós? Que faremos? – Era quase um coro de almas danadas e sem rumo.
– Sigam a vossa vida, e respeitem-na. Não façam mal a ninguém, e procurem o Espírito em todas as coisas... numa pedra, nos vermes que limpam o mundo.
– Mestre, e por qual caminho deveremos prosseguir? – Replicou um dos discípulos num tom altissonante de príncipe herdeiro que procura o reino.
– Escolham um. Este era o meu caminho.
– Mestre, e como saberemos a quem seguir? – Murmurou o mais franzino de todos.
– Como souberam seguir-me? Adeus. Deixem-me repousar.
– Mestre, e que diremos ao mundo? – Implorou hesitante aquele que parecia um camponês.
– Digam que nenhum lugar é sem sombra.

Jesus Carlos
22 de Agosto de 2010
Publicado no Nº3 dos Cadernos de Filosofia Extravagante – António Telmo, Ed. Zéfiro, Sintra, Novembro de 2011

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Wednesday, December 12, 2012

Deadly Pistachios, 23


(Da série Dividuum) Camouflage X, Claudia Rogge, 2007

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Saturday, December 8, 2012

O Músico


Hines VA Hospital, 4th Floor, Andrew Ek, 2005

Dentro da casa, no quarto escuro, a mãe morre de cancro na cabeça; atacou-lhe a garganta, os pulmões, abriu-lhe uma chaga num seio. O nariz está reduzido a uma grande narina em carne viva, purga continuamente de um ouvido um líquido amarelo, o olho desse lado mantem-se aberto dia e noite, gelatinoso, sem vida, enorme. Não sai da cama, quase já não vê nem ouve, não fala, reconhece, no entanto, e o buraco da boca ecoa pelos dias e as noites um fundo vagido de dor, longo, gutural, que termina num gorgolejar sufocado quase imperceptível, uma pausa, e depois novo vagido; sucedem-se repetidamente numa qualquer mecânica animal da dor; ecoam pela casa. Do olho monstruoso e do outro escorrem-lhe lentas lágrimas – é impossível distinguir quais lhe vêm do cancro e quais do coração. Dias houve em que a casa estava cheia de luz, vinha da rua e trazia rosas, era bela e doce. O vagido horrível ecoa pela casa, uma partitura do horror, na exactidão absurda de intervalos monótonos, lúgubre, horrível. Está à espera da morte deitada no inferno.
Fora, na quinta, a criança toca violino. Olha para as três laranjeiras defronte, ou para o céu azul-quente, ou para a água quieta do largo tanque onde amiúde um pardal pousa e bebe, e toca furiosamente. Toca e anda sem direcção; pisa as flores, espezinha pequenos animais, pontapeia os cardos. Põe-se a seguir o curso de uma vala e toca violino como um deus que criasse mundos de violência; a água chega-lhe aos joelhos, caminha ao longo da vala, toca violino como um assassino esparge a sua adaga de sangue. A vala afunda-se na terra, a vala conduz ao centro da Terra: ou pelo menos a um mundo pesado, inacessível e cruel para todo aquele que não toque violino.

Jesus Carlos

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Friday, December 7, 2012

Deadly Pistachios, 22


Le Transi de René de Chalon, Ligier Richier, 1547 (foto de Pierre le-Duc, 2008)

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Wednesday, December 5, 2012

Cantares De Um Desterrado III


Finisterra, Ralph Dinkel, 2006

A pátria respira, é um rio que liga terras, o verdecer da folhagem fermenta o rubro futuro das rosas, a serem veios por entre a neve, o veado e o lobo esperam, o cão e o menino pastor assomem no cume branco da montanha e adivinham o degelo, o poeta grita para o vale, para que a pedra acorde e o gelo conheça palavra que o diga.
Por cima da noite o poeta correu com um archote pelo trilho antigo, o veado, o lobo, o menino pastor e o cão saudaram-no. Sabem desde sempre que o poeta é o arauto das tempestades, que a montanha fala dentro da sua loucura, e depois viram-no a escrever com o archote na areia da praia, o manto do Inverno unido ao ouro do fogo, a neblina que se aquietou em volta do casco apodrecido na margem, viram-no a escrever e o vento soprou mais forte, a floresta, o luar e o espelho líquido estendido na prata tornaram-se o lar do homem e do bicho, porque tudo se aproximava deles, o céu unia-se ao chão e ao mar, com a montanha erguida em vela, num fulgor limpo, trémulo entre as sombras e as chamas.
A barca que o gelo eternizou em cristal de miragem não está morta, não morre o que não perdeu a esperança, não é vencido aquele que não esqueceu, ainda que o timoneiro seja um espectro imaterial como um véu, continua ao leme, as mãos dobradas, águia pousada acima do precipício das águas, mesmo que a barca pareça vidro imóvel, balanceia ao sussurro das vagas, leviatã primordial e temerário, se o capitão é um fantasma que vagueia no convés, os seus olhos de lume esperam aquele que há-de embarcar.
O poeta ilumina a gravura no glaciar. Virá, por tudo o que é sagrado, por tudo o que chora e grita na mordaça da treva, por tudo o que a chuva não apaga, por tudo o que canta nas conchas e nos astros. Isto os meus olhos viram e o resto me contaram os mortos.

Jesus Carlos

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Monday, December 3, 2012

Deadly Pistachios, 21


Psicostasia, Dino Valls, 2005

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