Tuesday, October 30, 2012

Deadly Pistachios, 14


'Blue Hawaii', Norman Taurog, US, 1961

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Sunday, October 28, 2012

Ao Sábado, No Teu Cemitério


Night in Shangri-la I, Gottfried Helnwein, 1987

Noites de água choca, o manto denso do ar a gemer quente, baixo no tear pétreo das vielas, quando saltos altos em bando seguram pernas nuas. Estou encostado à parede do outro mundo das janelas, um espectro mais no espelho trémulo da noite soprada, sombra que se afasta do sujo colorido do muro, a aguarela negra e verde de uma mancha de humidade. Há uma pequena árvore, inclinada para o ângulo em que os passos do coração são um valado, um esgoto serpeante de beatas, linfa e copos partidos, caem vultos dos telhados, numa dança escura, o vento a tocar os ramos, não estivesse tudo quieto.
Não deveria ter sido assim, mas vês-me, não sou falador dentro da febre espessa, a névoa, estes reflexos, um rosto entre caveiras, os teus olhos de criança espantada, o roçar dos dedos, lâminas e canções, a tua língua move-se, ao meio do nada, um precipício de gente, símbolos, cópias, Deus ao pescoço, acho que conheço esta fábula. Nada tenho de importante para dizer e vou desfazer o teu vestido, despedaçar a tua alma, com um grito de urgência final.

Jesus Carlos

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Friday, October 26, 2012

Deadly Pistachios, 13


(Da série Rite of Passage) Night Light, Tom Chambers, 2006

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Monday, October 22, 2012

Deadly Pistachios, 12


(Da série Japan) Hephaestus and Himuro, Rachel Blaser, 2007

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Saturday, October 20, 2012

Sem Som


(Da série Silent Pearls) Theda Bara, Tamara McGregor, 2011

O silêncio ganha um grão de sépia, como num filme
Mudo, é áspero, uma película do nada, que arde
Do centro ferido para os bordos. Disponíveis,
Os corpos incorruptos, estilizados, eternamente
Pó eléctrico, desde que inventaram as campainhas.
Tudo é cinema. Expulsaram o silêncio de Metropolis
Pelo preço de um eros recarregável, a pilhas.
Na plateia aplaude-se, em tragicomédia, digestiva.

Jesus Carlos

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Thursday, October 18, 2012

Deadly Pistachios, 11


Satan (illustration to 'Paradise Lost' by John Milton), Richard Westall, 1794

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Tuesday, October 16, 2012

A Escócia


High Born of Scotland, Dean McClelland, 2004

Temos todos uma pátria mítica ao fundo da alma, uma terra verde onde a vida se renova em pináculos de neve e em mares límpidos. Na minha pátria mítica a terra e o homem são um só, mas também as águas, os céus e as montanhas; entre a geada e a neblina, o vigor expectante do veado é o coração tranquilo do guerreiro que ateia o lume; o grito do falcão, sobre as nuvens atapetadas de prata, é a valentia do pastor que trepa vales e escarpas. É um reino, e não um país, porque é a vontade dos homens que regula o curso do tempo, a cor das casas, os dias sagrados, os dias para o luto e os dias para o júbilo e o temor da noite que conserva nos gestos das crianças a aliança primordial entre os homens e a morte. São um povo, de saúde férrea enraizada nos corredores minerais do chão, de braços fortes como as pedras em pé, altas, eternas, que bordejam o mapa invisível das leis e dos costumes; os panos coloridos que incendeiam as raparigas, as barbas e os cabelos desgrenhados dos rapazes e a dança dos archotes que lhes une o desejo; o ritual de conservar a memória  no zelo com que se cuida das espadas e dos escudos de eras pretéritas; os relógios lentos nos edifícios de rocha.
Nada é um vazio, tudo é pleno de uma força antiga, santa. Nas horas em que a vida cansa, caminha-se para o manto branco colado ao céu, nenhuma coisa é feita de fraqueza, sobe-se, sobe-se com a ajuda dos mortos que antes o fizeram, para cima, para cima onde o trono de gelo apazigua as dúvidas amargas, a melancolia de ser, o peso da morte e ergue a alegria do sangue acima dos medos do espírito. Depois somos pedra na pedra, uma estaca de gelo sem idade, com os cabelos soltos misturados às nuvens, as aldeias muito fundo no abismo do vale, mais pequenas que um pé, e sabemos que o paraíso é tão simples como estar sentado no vento em silêncio, a cortar pão de forno e queijo de ovelha.

Jesus Carlos

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Sunday, October 14, 2012

A Decepação De Vénus


Illustration for V Magazine Spain displaying some of the Haute Couture AW 2013, Ignasi Monreal, 2012

Para a Marta Amado.

Os verdes e amarelos da manhã
Chegaram cedo. Não sei,
Se nos acordaram, ou adormeceram.
Sei que nos encontraram enrolados
Nas folhas como duas cobras.
O teu sangue corre pelo meu
E pelas raízes, as águas.
A beleza está em tudo, mas
Se tudo fosse belo
Ficaríamos cegos, para sempre.
Caem os cabelos para onde
Os cabelos caem. Caem os teus olhos.
A tua beleza com ferocidade apago
Para não me viciar nela.
Se um dia encontrares o paraíso,
Envia-me um postal.

Jesus Carlos

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Saturday, October 13, 2012

The Lady Of Shalott


The Lady of Shalott, John William Waterhouse, 1888

Toda a beleza se cala quando vagas alva e luminosa pelos pântanos. Barca ou berço, útero das águas, castelo e leito do guerreiro, fonte para o exangue, o faminto, o desterrado, ósculo e cura, do miserável e do louco, alva, toda a beleza se cala, quando vagas. Vem, Dama de Branco, que a tua sombra de luz me dê vergonha da minha força, que o jardim do teu coração me faça ajoelhar e abraçar a terra, que as tuas mãos de neve me façam apagar o inferno negro da minha alma. Vem por entre os pântanos, onde o sangue e a dor e as ignominiosas coisas que rastejam tecem a sua rede de murmúrios na água, vem por entre os pântanos, vem com a tua barca da vida e da morte e acerca-te desta estaca implacável de fogo e chega até mim, a criança orfã que lutou nos bosques. Vem mãe das águas e irmã das ínfimas frágeis criaturas que alegram o mundo, o orvalho na pétala, o grilo no feno, a ave no anil-espírito do céu, vem sobre os pântanos, os pântanos do mundo, e que um grande silêncio se erga do chão, e toda a beleza se cale, e o sopro uivante da minha vida, enfim, cesse. Depois, faz de mim uma rosa e, por entre o vagar das águas, coloca-me no teu cabelo e esvai-te dentro da bruma.

Jesus Carlos

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Friday, October 12, 2012

Deadly Pistachios, 10


Heart, Oleg Dou, 2007

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Wednesday, October 10, 2012

Deadly Pistachios, 9


The Third Leg, Zhang Huan, 1993

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Tuesday, October 9, 2012

Pavilhão De Caça


Conquest of Paradise, Jan Saudek, 1995

Para a Tâmara Silva.

A presença da água dá outra profundidade à casa. A luz desprende-se desse brilho; levanta uma dança de seixos no ar, mínimas perlas e castelos secretos. Ela sonha à beira da água e a luz leva-a, levada pelo vento com as folhas mortas e as couraças dos vaga-lumes.
Um príncipe virá, pousar-lhe o corpo de fogo sobre os lábios, e ela não acordará. Um ladrão virá, cravar-lhe o duro punhal na boca, e ela não acordará. Um demónio virá, sentar o rabo de carne na sua língua, e ela não acordará. Da alvura dos lençóis, por cima dos pântanos fervidos do mundo, a sua gémea virá, vestida de pétalas tácteis, coágulos estelares, capas de espadachim e morrerão abraçadas, e ela morrerá feliz por ela, chamando-lhe, o amado.
Nossa Senhora, ergue-se ao alto, acima das águas, de coração sangrante. O anjo enche o quarto e a luz vem para mais perto dos corpos como um segredo das abelhas, esta dádiva de luz, esta dádiva de pólen, o amor, parte a mulher engole, parte espalha-se pelos lábios da amante, pela face, pelos cabelos, pelos ombros que o crepúsculo citadino ilumina, na noite infinita, na solidão do espaço.

Jesus Carlos

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Monday, October 8, 2012

Deadly Pistachios, 8


Power of Death, William Holbrook Beard, 1820

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Saturday, October 6, 2012

Deadly Pistachios, 7


Chez la Marchande de Pavots, George Barbier, 1920

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Thursday, October 4, 2012

Deadly Pistachios, 6


Amazone nach dem Kampf, Alexander Rothaug, 1934

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Wednesday, October 3, 2012

Verde & Negro


The Young Model, Charles Meere, 1941

Verde é o esperma vegetal do tempo.
Muitas vezes também é verdejante
O uivo das trevas, a pura nota musical
Da morte. O esquecimento chega,
Qual benção dos bosques. Tremor
Hiemal da minha carne antiga. Tão pura
Dádiva de juventude cruel, a beleza
De tudo, os teus lábios e a efemeridade
Da relva: manto fresco sob o teu corpo
Branco, que cobre com o seu verde esse
Outro manto tão negro do tempo.

Jesus Carlos

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Tuesday, October 2, 2012

Deadly Pistachios, 5


Quentin Tarantino, David LaChapelle, 2007

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Monday, October 1, 2012

The Phantom Time


St. George's Battle with the Dragon, Vitale da Bologna, c. 1350

There is no time; the wind blows,
Said the fairies; the frog told
A tale of pearl skin men; long neck
White horses sang a spell, awakening
The knights in crimson armours. At war
With dark ages and the veils, alive
In this storm days, all we are
Brothers in sword, blood and truth.

Jesus Carlos

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Moleskine de Scardanelli © 2012 (3rd edition) | Panel