Sunday, September 30, 2012

A Clareira


The Disasters of War (detail), Gottfried Helnwein, 2007

Para o Vitor Vicente.

O passageiro apeou-se na estação dos figos,
Com as escamas de prata dos lagos
A desenhar o torso dos animais luminosos.
As serpentes escreveram na areia, Silêncio, e
Por entre as hastes afiadas das searas de ouro,
Que são uma demência sussurrante do ar,
Uma jovem ceifeira de branco veio.

Ele incendiou os cabelos, mesmo de dia.
«Ceifa, e que a luz caia sobre mim.»

Jesus Carlos

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Saturday, September 29, 2012

Deadly Pistachios, 4


Old Marilyn Monroe, Andrzej Dragan, 2008

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Thursday, September 27, 2012

Deadly Pistachios, 3


Masquerade, Francesco Sambo, 2012

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Wednesday, September 26, 2012

Meia-Noite De Góticos À Conversa Debaixo De Um Candeeiro


Death by Temptation, Sue Anna Joe, 2006

Para a Ana Pimpista.

– Ninguém faz pele nas tatuagens.
– O homem que trazia a Lua num balde.
– Ninguém penteia os cabelos do Sol.
– Troco o meu cemitério pelo teu carro-de-linhas.
– Tiras água do meu poço?
– Tiras o poço da minha água?
– Quando for como tu, não quero ser como tu.
– Vem para dentro do meu sangue.
– Tudo, mas não mordas o meu piercing.
– Aliás. Lilás. Satanás.
– Eu gosto de te ver com ela e comprei um punhal.
– Eu gosto de vos ver às duas e quando era miúdo arrancava as asas às borboletas.
– Queres morrer entre nós?
– Querem viver dentro de mim?
– Também quero!
– Trouxeste morcegos, glaciares, unhas de anjos?
– Encontrei um túmulo tão pequenino que fiz dele um anel.
– Alguém encontrou o meu coração? Deixei-o cá ontem.
– Ela tinha um, também tinha uma boca, mas nunca sorria e morreu.

Jesus Carlos

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Tuesday, September 25, 2012

Deadly Pistachios, 2


Edgar Allan Poe (ilustração para o artigo 'Edgar Allan Poe, Reality as a grotesque deception' de Jess Nevins), Sean Phillips, 2012

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Friday, September 21, 2012

Alentejo Seen From The Train


Native Land 1948-1989, Jan Saudek, 1972

Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil it is?

Alentejo Visto Do Comboio

Nenhuma coisa com nada em redor
E umas poucas árvores entre
Nem uma delas claramente verde,
Onde nem rio nem flor as visitam.
Se há um Inferno, encontrei-o,
Pois se não é aqui, onde Diabo seria?

Fernando Pessoa, 1907
Tradução de Jesus Carlos

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Wednesday, September 19, 2012

Com Talheres


City Zombies, Rui Palha, Praça do Comércio, Lisboa, 2005

Para a Francisca Coutinho.

A rapariga do restaurante é sempre atenciosa comigo. Ao início era hesitante, uma vez o guardanapo e os talheres caíram-lhe das mãos, olhava para mim de olhos muito abertos e ora se me dirigia na terceira pessoa, ora na primeira. Depois a coisa estabilizou em gestos eficientes e no tratamento de «senhor» – o patrão é um boçalóide gorducho ávido de dinheiro e nada se compara à mentalidade de comerciante no convencimento dos humildes da importância relativa de alguém; tão rapidamente passamos de párias a excêntricos e de excêntricos a raridades a merecer uma ritualizada parcimónia social. É bonita, a cidade suja ainda não lhe roubou da face o colorido saudável do campo. Uma história. Um triste conto repetido: há quatro, cinco décadas ainda vinham servir… e serviam. Hoje, vêm estudar, arranjam um quarto miserável, um emprego de escrava e, por vezes, abrem muito os olhos à procura de alguma beleza no mundo, quiçá, de alguma bondade.
A sua simpatia por mim é espontânea e generosa, tem o vigor das coisas simples que não param para pensar o mundo, a verdura da erva, um grito de pássaro na distância. Esta noite tocou-me no braço, para me poder perguntar se desejava mais alguma coisa. Eu sei que é de doido, estar a jantar de leitor de mp3 ligado, mas passo por longos períodos de «façam de conta que eu não estou aqui». É patético, deveria preocupar-me com estas regressões adolescentes, mas a verdade é que só podemos ser quem somos e a lei que rege as singularidades senta-se num trono, puro e sagrado, acima de todas as leis gerais das ciências. Há mousse? Pelos vistos, sim. Conheço cada pormenor do seu corpo jovem, cada requebro emocional seu, sem nunca lhe ter tocado. Quando se consegue absorver os outros num olhar, pouco sobra para fazer. Que está a ouvir? Passo-lhe um dos auriculares; nem de propósito, «Marian», de The Sisters Of Mercy. Ela fica, de facto, a escutar (tem algo de estátua num jardim), o tempo que lhe permite o trabalho e a tal parcimónia. É triste – diz. A solidão não deveria existir. Tem um coração, a menina de aldeia, intui a eterna orfandade masculina – e tem um corpo, a rebentar, como um fruto que amadureceu, por dentro do avental berrante, que diz «Seja Bem Vindo». Perpassa-me um fugaz desespero quase doméstico, como a evocação das filhós de infância em todos os Natais perdidos. Quantas casas de luz homens e mulheres erguem nos desertos do coração que nunca serão habitadas.
Não deveria existir a solidão? Nada do que senti, pensei, escrevi, existiria. Eu não existiria. A solidão é a armadura dos malditos – mas isso ela sabe, adivinha-o com perfídia juvenil de fêmea, não duvida que me dará prazer, que eu o beberia com a mesma sede de qualquer outro homem. O que ela não sabe, é o que eu poderia fazer à sua carne – e que tudo o que fizesse à sua carne faria à sua alma. Deixo a gorjeta do costume, levanto a gola negra do casaco comprido e saio.
Merda de cidade, sempre tão fria. Eu não estou aqui.

Jesus Carlos

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Monday, September 17, 2012

Cantares De Um Desterrado I


Finisterra, Ralph Dinkel, 2006

A balsa que me espera na margem conhece a minha dor e não sei em que terreiro de antanho o leite e o mel guardam o meu lugar na távola desfeita. São os rios que gelam, os pomos e num ápice as aragens e mudam as estações com a memória no coração magoado à torreira dos dias. Chão, tu és a minha mãe e nunca me perdeste, mãe, tu és o meu chão e nunca me perdi. A balsa, este féretro nas águas. Eu ouvi o clarim, no túmulo, entre sonhos, mais quieto que todos os mortos, nem conheço a rota, em que porto a luz, com o branco nos estandartes e nos lenços e os infantes, os olhos, os faróis, atentos ao tesouro naufragado que as vagas levantam, pelourinhos incorruptos no mapa secreto dos mares. A saudade é o guia do cego, do desterrado, do príncipe que vagueia errante por dentro do nevoeiro. Os meus irmãos não esqueceram o meu nome, à friagem, gravaram-no no rochedo para que me lembrasse do meu sangue, nos cânticos que defendem a arca, na fábula dos cardos, é depois das serranias, ou dos desertos do amor, ou da ruína dos castelos. Não apaguem o fogo, não apaguem o fogo, a estrela que sigo nesta escuridão da terra.

Jesus Carlos

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Sunday, September 16, 2012

Deadly Pistachios, 1


The Spirit of Contemplation, Albert Toft, 1901 (foto de George P. Landow)

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