Saturday, June 3, 2017

Cigano Da Morte


Man On Fire, Diggie Vitt, 2013

Era um poeta caracol, com a sua mochila
De livros, t-shirts, boxers, os ténis da sorte,
As botas de combate, blusão de plumas
De invisibilidade e chapéu de treva, junto
Às caravanas da noite, embrulhado roxo
Num nomadismo da existência com sacos,
Abençoado pelas estátuas, nuas, longas,
Com os braços apontando, todas de unhas
Rebrilhantes dentro dos lampejos últimos
Do adeus da noite e do nada. Ele cantava.
Ao longo das iluminações de sangue. Fim.

Jesus Carlos

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Tuesday, May 30, 2017

Deadly Pistachios, 324


(Da série Week-End) Desiree, Alex Prager, 2010

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Wednesday, May 24, 2017

Safo


'Sappho', Robert Crombie, Ukraine, 2008

A despedir-se de si mesma, Safo
Deixou duas rosas que seguravam
Do vento uma folha em branco.
Até quando? Roseiras, lajes, céus,
De cada vez o precipício é maior.
O cisne negro no cimo do telhado.
Agora, ou nunca, amanhã, depois.

Jesus Carlos

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Saturday, May 20, 2017

Deadly Pistachios, 323


Hiromi and Thea in a Yellow Room, Guido Argentini, 2007

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Monday, May 15, 2017

Rainha Madrid


'My Winnipeg', Guy Maddin, Canada, 2007

Assim glorificada de neve, vestida
De algidez, de mantilha e cetro,
De luzes adornada, deleites, dores,
A procissão dos vícios e a elegia
Na fome dos lugares santos. Rainha,
A cidade é um palco, canta, coroada
De noite sem fim, com os homens
Pendurados como estampas. Santa,
A cidade que se agita, entre lojas
Iluminadas, bordéis, igrejas. Atriz,
Meretriz, mendiga, luxo de rainha,
Corpo de pérola, brincos ciganos,
Cabelo longo, sexo de vinho. Monja,
Que passa desnuda pelo corpo nu
Do Cristo, com o pénis sangrento e
Murcho, por círios, e talhas, lírios,
Para se entregar ao seu amante,
O níveo e eterno esposo Inverno,
Que a ergue alado no ar gélido.

Jesus Carlos

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Monday, May 8, 2017

Deadly Pistachios, 322


It's Our Pleasure to Disgust You, Barbara Kruger, 1982

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Tuesday, May 2, 2017

Vidro Com Teia


Untitled, Diggie Vitt, 2014

Passam as estações, o coração muda. Sem nada guardar, como uma metafísica do vidro, a absoluta transparência, nada aqui, uma ausência de tudo na forma de um corpo, com os olhos colados à janela e o filme do suicídio das folhas, entre o vulto escuro das árvores. Ampulheta de pó de unhas, cabelos, lábios, lamentos. Se recuarmos, o fim passa a ser o início. Uma múmia entrapada de rosas. A cerveja que já ninguém bebeu. Não suporto esta corrupção dos corpos, a doença, a velhice, e vou ser uma estátua coberta de musgo, esquecida dentro da floresta. A morte que ama a morte, com alguma coerência lógica, lírios e couves, vermes e pássaros, e uma coroa última de apocalíptica beleza.

Jesus Carlos

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Saturday, April 29, 2017

O Cavaleiro Sem Coração


(Da série Rockabillies) Sem título, Erik Refner, Hemsby, UK, 2002

O cavaleiro vestido de noite e prata,
Entre valas negras, enterrou fundo
O seu pobre coração de chumbo e
Vai, para onde vai o vento. Os lábios,
Secos, a pedir a paga mais simples,
A sombra, a água, o pão e o caminho.

Ah, devolvam ao cavaleiro perdido
A sua rosa de sangue, a que é pura,
Que murmura mais alto na noite e,
Quando mãos a tocam, se desfaz
Em pássaros roxos. Escuras, tristes,
As águas choram, choram, choram
Porque ele passa, passa e não fica.

Cavaleiro sem coração, «Adeus!»,
«Voltas quando voltar o vento?»,
O vulto que passa, passa e não fica,
Os pássaros roxos por companhia.

Ó devolvam-lhe, águas chorem, ó
Devolvam-lhe a sua rosa de sangue.

Jesus Carlos

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Tuesday, April 25, 2017

Deadly Pistachios, 321


Fly Away, Birgitte Niedermair, 2012

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Thursday, April 20, 2017

Arcóbriga


She Rises, Courtney Brooke, 2015

As ancestrais pedras lembram falos erectos,
Bois erectos, espadas e lanças. De entre a bruma
As imagens. Assim evocadas, hieráticas,
Sobreviveram à morte? Pó que ao pó regressa
Levanta uma cerrada névoa mas
Todo cujo coração lê no espelho da pedra
Pode ainda vê-las. Quem as viu ficou
Com a alma mais funda. Assim gloriosas,
Roxas ao poente, altas, hipnóticas.
Aqui morreram reis, é uma presença
Como a de árvores mortas. Aqui quero eu morrer,
Como a carcaça de um burro ou de um boi.

Jesus Carlos

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Moleskine de Scardanelli © 2012 (3rd edition) | Panel